A FARSA DA BOA PREGUIÇA: Sobre ritmo, memes e imprevistos – Por Elcio Lima
Montagem teatral: A Farsa da Boa Preguiça
Montagem: Prática de Montagem dos Curso Técnicos de Teatro, Cenografia e Figurino.
Elcio Lima[1]
Abrindo os serviços da Mostra Cênica 2025 da ETDUFPA, a montagem da clássica peça "A Farsa da Boa Preguiça", de Ariano Suassuna, trouxe para o palco, ou melhor, para o estacionamento da ETDUFPA, um espetáculo visualmente encantador, mas que pecou em ritmo.
Sob a direção de Karine Jansen e Larissa Latif, na noite do dia 20 de março (data de estreia), o público teve a oportunidade de conferir a apresentação do segundo elenco (havia 3) formado por alunos da turma do primeiro ano do curso Técnico em Teatro, que enfrentou o desafio de dar vida à obra do mestre paraibano. Havia dedicação e o desejo categórico de fazer rir visto desde as chamadas nas redes sociais. Porém, na cena a céu aberto, os desafios se apresentaram. Nas atuações notava-se uma demasiada dedicação ao texto decorado que acabava por conflitar com o tempo de relação entre o cômico, a sonoplastia e a recepção do público.
Embarcando na onda dos memes atuais que surgem aos borbotões na internet, a sonoplastia utilizou de sons específicos a músicas que, pontualmente, faziam rir. Contudo, o ritmo da comédia se perdeu em diversos momentos, especialmente quando havia uma exigência implícita do diálogo entre a atuação e a sonoplastia. A precisão do tempo cômico, essencial para uma peça desse gênero, parecia não estar completamente afinada, tornando algumas cenas arrastadas e diluindo o impacto humorístico de certas passagens. Além disso, a extensão do texto, que já é naturalmente longo, pareceu ainda mais desafiadora com esse problema de ritmo, causando uma sensação de desgaste em parte do público. Apesar dessas questões destaco as atuações de Isabella Bravim e Leonardo Verçosa, que interpretavam respectivamente Clarabela e Aderaldo Catacão; e, ainda, Breno Ushôa como São Miguel (e mais uma meia dúzia de figuras). O trio fazia rir toda vez que entravam em cena e mesmo quando a memória falhou para Verçosa, a experiência puxou o improviso, logo engatou um caco e a cena seguiu animada.
A cenografia idealizada por Milene Batista, David Galvão e João Caíque, foi um dos grandes acertos, transportando a plateia para o universo do cordel com um cenário que remetia às xilogravuras típicas desse estilo literário. Cores vibrantes e contrastantes desenhavam a paisagem nordestina de forma estilizada, conferindo uma identidade visual marcante e coerente com o universo de Suassuna.
O figurino, assinado por Enzo Gabriel sob a coordenação de Ezia Neves, e sua competente equipe de assistentes, seguiu essa mesma linha estética, com trajes caricatos e bem construídos, ressaltando a teatralidade dos personagens. Os atores estavam vestindo cores fortes, cortes exagerados e adereços típicos que ressaltavam os arquétipos cômicos da peça, contribuindo para o tom farsesco da narrativa. O cuidado nos detalhes do figurino não passou despercebido, sendo um dos pontos altos da produção.
A encenação mostrou um trabalho cuidadoso na construção do universo estético e na concepção dos personagens, mas poderia ter se beneficiado de um maior rigor no timing cômico e no dinamismo das cenas.
Um dos momentos mais inesperados e memoráveis da noite foi a queda de energia que quase interrompeu a peça. No entanto, em um gesto de cumplicidade e envolvimento com o espetáculo, a plateia prontamente utilizou lanternas de celulares para iluminar a cena, permitindo que os atores continuassem a apresentação. Esse momento improvisado trouxe uma atmosfera única, quase mágica, ressaltando o caráter popular e a força do teatro como uma arte viva e coletiva.
No geral, a montagem teve seus méritos visuais e um elenco dedicado. A resiliência do grupo e a interação do público mostraram que o teatro, mesmo diante de imprevistos, continua sendo um espaço de encontro e criatividade.
Ao fim dos aplausos, a chuva noturna, porque em Belém é tempo dela.
02 de abril de 2025.
[1] Elcio Lima é ator e Diretor do Grupo Presságio. Graduando do Curso de Licenciatura em Teatro e aluno do curso Técnico em Figurino Cênico.
FICHA TÉCNICA
A Farsa da Boa Preguiça
TEXTO
Ariano Suassuna
DIREÇÃO
Karine Jansen e Larissa Latif
ELENCO 2
Daniel Mozart, Rafa Takemura, Leonardo Verçosa, Isabella Bravim, Gustavo Sanato, Breno Ushôa, Ana Carolina, Bru, Agatha Sou e Elaína Ferreira
DIREÇÃO DE FIGURINO
Ezia Neves
FIGURINISTA
Enzo Gabriel
ASSISTENTES DE FIGURINO
Exodo Gabriel, Warlason Lima e Rosário Oliveira
DIREÇÃO DE CENOGRAFIA
Iara Souza
CENÓGRAFOS
Milene Batista, David Galvão e João Caíque
ASSISTENTES DE CENOGRAFIA
Mateus Barata e Regis Cardoso
SONOPLASTIA
Gutto Ferreira e Lennon Bendelak
DESIGN, EDIÇÃO E ROTEIRO DE VÍDEO
Adrynny Oliveira
ILUSTRAÇÃO E EDIÇÃO DE VÍDEO
Gustavo Sanato
FOTOGRAFIA E FILMAGEM CÊNICA
Danielle Cascaes
FOTOGRAFIA E MOBILE
Camila Martins
ELABORAÇÃO DE TEXTOS
Evelyn Sarmento, Amarildo Pastana e Albert Aguiar