O teatro e a revolução – Por Claudia Floresta
Montagem teatral: A Farsa da Boa Preguiça
Montagem: Prática de Montagem dos Curso Técnicos de Teatro, Cenografia e Figurino.
Claudia Floresta[1]
Primeiramente esclareço que não assisti a estreia do espetáculo "A Farsa da Boa Preguiça", na deliciosa tarde do dia 20/03/25, com a intenção norteadora idealista de teatro. Também tenho consciência que o espetáculo teatral é efêmero e nunca a apresentação de um dia é igual ao outro. Por fim, o presente ensaio é resultado da disciplina, Exercício da Cena III – Encenação, com tutoria do professor Edson Fernando.
Começarei falando um pouco sobre encenação, termo relativamente novo que foi cunhado por André Antoine. O encenador, responsável pela encenação, é o que propõe a viagem do espetáculo pelos indutores de criação, é um organizador de processo(s) criativo(s). O encenador pensa processos disparadores autorais com toda a equipe envolvida no espetáculo.
Ainda sobre o encenador, vale pensar que ele é aquele que propõe pesquisas. No entanto, as pesquisas não se limitam ao processo de criação dos atores, mas também as pesquisas do cenógrafo, do figurinista, do iluminador, do dramaturgo e todos os envolvidos no espetáculo. Entende-se então que o trabalho do encenador é dar um sentido global não apenas a peça representada, mas a prática do teatro em geral, que também deriva de uma visão teórica que abrange todos os elementos componentes da montagem: o espaço, o palco, a plateia, o texto, o espectador, o ator.
A concepção de um espetáculo pelo encenador inicia-se repleta de questões que conforme são respondidas pelas pesquisas realizadas pela equipe vão dando forma e vida ao espetáculo. Para ser encenador tem que viver a cena e entender as engrenagens, a maquinaria teatral, as técnicas de luz, figurino, sonoplastia e na atualidade também das mídias virtuais. Dessa forma, a "dramaturgia" do encenador seria uma montagem de montagens.
Segundo a Professora das galáxias, Wlad Lima, o encenador tem que pensar no discurso cênico fazendo alguns questionamentos. Que tipo de discurso o espetáculo tem? O que ele está falando para cidade, para esse tempo de agora? O que ele provoca em mim? O que ele provoca nas pessoas? Qual a relação "palco e plateia"? Qual é a estrutura cenográfica? Que tipo de ambiente é esse e o quê que ele tem pra dizer nessa relação entre o ator e seus espectadores?
O teatro pode existir sem a maquiagem, sem figurinos, sem cenografia, sem palco, sem efeitos sonoros e de luz etc., mas não pode existir sem a relação direta e palpável entre ator e espectador, neste caso a função do encenador seria somente encontrar uma unidade de concepção do espetáculo vinculando à harmonização do ator com o espaço, procurando dar vida ao drama. É aí que acredito identificar a diferença entre encenador e diretor. O primeiro busca uma tessitura dramática, uma unidade visual e tem um olhar e escuta atenta para todas as coisas do espetáculo e o segundo é aquele que propõe modos de dizer o texto, modo de gesticular, volume de voz, dicção e alertar sobre movimentação exagerada, tiques e vícios de cena, enfim, uma ação mais direta com o ator.
Então vamos a "Farsa da Boa Preguiça", uma peça teatral que foi escolhida, segundo consta na rede social instagram do espetáculo, pela importância de Ariano Suassuna para a cena brasileira. Vale ressaltar também que é a primeira prática de montagem da turma 2024 de primeiro ano dos cursos técnicos de Teatro, Cenografia e Figurino da ETDUFPA.
Não encontrei na ficha técnica do espetáculo o responsável pela encenação, parece que optaram por somente ter diretoras de espetáculo, figurino e cenografia, sendo todas docentes da instituição. Aqui me surgiu uma dúvida pois se na ETDUFPA existe o curso Tecnológico de Produção Cênica não poderia, então, o espetáculo ter tido também um encenador? Já que teatro se aprende fazendo não seria uma excelente oportunidade dos discentes de produção cênica "treinarem" encenação? Será que faltou estabelecer articulações didático-pedagógicas entre os outros cursos ofertados pela ETDUFPA? São questões a se pensar com carinho.
Já que o espetáculo não teve a figura do encenador, vou brincar de ser encenadora eu mesma, levantando alguns questionamentos com o objetivo de tentar visualizar o que a Professora das galáxias, Wlad Lima, define como discurso cênico.
Então vamos começar pelo local escolhido para a apresentação. Ele proporcionou uma aproximação interessante entre atores e plateia, mas confesso que fiquei um pouco apreensiva com a possibilidade de chuva, pois estamos entre meio e fim do inverno amazônico em Belém onde a chuvas a qualquer hora podem precipitar. Perguntas surgiram: como foi escolhido o local da apresentação do espetáculo? Existiu alguma questão com a agenda do Teatro Cláudio Barradas? Fiquei com cuireza.
Já a concepção dos figurinos dos atores ficou fabulosa, mas em tempos de colapso climático no qual a consciência da geração reduzida de resíduos se faz urgente, fiquei curiosa se os figurinos eram novos ou adaptados a partir do acervo existente da ETDUFPA. Afinal acredito que no acervo deve existir muito material disponível. Não conversei com a diretora de figurino do espetáculo para saber detalhes, mas o que quero dar luz, e isso vale para todos os espetáculos, é a questão de se pensar com carinho para a reutilização, ressignificação e reciclagem dos figurinos, pois além de otimizar os escassos recursos financeiros disponibilizados pela instituição que poderiam ser utilizados para outras necessidades do espetáculo, também mostraria a conexão socioambiental do teatro além dos palcos. Pergunta: Como o teatro e seus bastidores lidam com as demandas urgentes do mundo?
A maquiagem dos atores estavam muito boa, mas achei que prejudicou um pouco a possibilidade de contemplar as expressividades de alguns atores. Talvez isso seja uma questão pessoal minha que prefere caminhar pelo conceito de teatro pobre de Grotowski. Outra pergunta então: Existiu tempo para experimentar a maquiagem nos ensaios para quem sabe notarem que às vezes o menos é mais?
A cenografia foi simples e interessante, mas também me veio a dúvida em relação as mesmas questões apontadas anteriormente sobre os figurinos. A outra coisa é que não entendi, e talvez eu tenha sido lesa, mas não compreendi a relação dos cactos com o inferno na cena apresentada quase no final do espetáculo. Até entendi o pretendido clima de sertão do Nordeste, mas não compreendi tal escolha que para mim, pessoalmente, soou um pouco estranho beirando um estigma.
Os atores, todos discentes, pareciam estar se divertindo na cena e essa diversão contaminou a plateia que se divertiu junto, isso é muito bacana de ver e sentir, porém as vezes percebia que alguns deles tentavam dar as suas falas com uma entonação nordestina que ficou um pouco forçado. Ora, a temática da Farsa de Suassuna não só se restringe ao nordeste, afinal a luta de classes existe mundo afora e falando em Brasil, a gente sente na carne todos os dias essa disputa. Então, levando em consideração que nos tempos atuais se faz urgente a consciência para o respeito das diferenças, talvez fosse interessante reavaliar tal conduta para não caricaturar os pares. Perguntas: Porque se escolheu uma temática nordestina e não se privilegiou uma nortista levando em consideração que estamos na Amazônia e ela está no radar do mundo com a COP30? Quanto tempo tiveram para ensaios e pesquisas? Qual a infraestrutura para os ensaios? Quanto tempo tiveram os atores para ensaiar e fazer experimentações? Tiveram tempo para discutir o que ensaiavam?
A estreia foi num final de tarde e por isso pouco pude perceber a iluminação, a não ser aquela que ficava bem direcionada ao banco onde o personagem poeta tirava seus repousos de ócio criativo. Até tinha algumas lâmpadinhas penduradas, mas elas não se acenderam. Como tudo no teatro é signo fiquei em dúvida sobre o propósito delas. Já a sonorização dava um certo ritmo no espetáculo, mesmo com alguns tropeços, as melodias contribuíam para dar graça nas cenas.
Na dramaturgia da peça teatral houve algumas adaptações como a competição entre santos, um remista e outro paysandu, o santo vestindo casaco de couro dando alusão ao personagem do filme de Matrix, entre outras. Não sei se contribuíram ou não para a mágica do espetáculo, então, fiquei curiosa em saber qual foi a intenção de ter colocado essas adaptações em cena. Será que era criar uma identidade com os espectadores? Ou simplesmente uma intenção de brincadeira com o público?
Eu sei que existem várias formas de fazer teatro, mas pessoalmente acho interessante aquela que se engaja na tarefa de conscientização coletiva fazendo denúncias, mas também anúncios das possibilidades de re(e)xistir. Criar outros mundos e dar luz as pedrinhas miudinhas invisibilizadas nesse mundo tão objetificado. Gosto de pensar teatro como ato de transgressão porque pela experiência criadora é possível ser radical atacando as estruturas sociais, isto é, a política da sociedade, mesmo sabendo que o moralismo burguês não tolera isso. Diante dessa perspectiva me pergunto: a Farsa teve pretensões intelectuais ou somente se destinava a divertir o público? Houve oportunidade de debaterem isso? Multiplicar signos no espetáculo não é difícil, o desafiador é preencher a realidade, saturar de poesia tudo que se faz e se diz em cena sem exagerar na significação, pois é sabível que disfarçar verdades num contexto vago não convence ninguém.
Diante todas as considerações, mesmo sem ter a figura de um encenador e eu brincando de encenadora acredito que "A Farsa da Boa Preguiça" apresentou sim um discurso cênico com um bom fluxo teatral e jogos de cena e para mim, o mais importante, oportunizou para os atores discentes e aos espectadores, através da arte teatral, criar um outro mundo e se desidentificar com o mundo caótico que vivemos, e assim sentir uma sensação de nascermos de novo. Augusto Boal já falava que o teatro não revoluciona, mas é um ensaio pra revolução. Não a revolução de armas, mas a revolução intelectual, de consciência política e de cidadania.
02 de abril de 2025
[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro;
Ficha Técnica
"A Farsa da Boa Preguiça"
Elenco:
Adria Leticia
Albert Aguiar
Breno Ushôa
Evelyn Sarmento
João Paulo Ramos
Larissa Couto
Marlene Oliveira
Nazaré Figueiredo
Rafél Silva
Roberta Lima
Direção do espetáculo:
Karine Jansen
Larissa Latif
Direção de cenografia:
Iara Souza
Direção de Figurino:
Ezia Neves
Cenografia:
David Galvão
João Caique
Milene Batista
Assistente de Cenografia:
Mateus Barata
Regis Cardoso
Figurinista:
Enzo Gabriel
Exodo Gabriel
Rosario Oliveira
Uarlason Lima
Design e edição e roteiro de vídeo:
Adrinny Oliveira
Ilustrações e edição de vídeo:
Gustavo Sanato
Fotografia e filmagem cênica:
Danielle Cascaes
Fotografia e mobile:
Camila Martins
Elaboração de texto e edição de vídeo:
Evelyn Sarmento
Elaboração de texto:
Alberto Aguiar
Amarildo Pastana
Sonoplastia:
Gutto Ferreira
Lennon Bendelak